A beleza não tem preferência pelo dia da semana. Quinta-feira passada chorei. Por causa da beleza. Por causa da música.
Somos vasculhadores naturais de beleza porque precisamos. Não daquela artificializada pelos filtros, mas da genuína que cabe no bico do passarinho ou na voz do instrumento.
Às vezes, a música não toca os dedos só nas cordas do violão. Foi o que aconteceu na quinta — a primeira vez, talvez em dois anos, que estive de novo num teatro e escutei uma dupla de violonistas. Eu sentia falta da música ao vivo e nem sabia quanta.
Acontece que tem coisas que moram do lado de dentro, em silêncio, e só se manifestam quando tocadas. Armazenamos afetos e paixões capazes de sobreviver toda uma vida de forma comedida e discreta.
Meu desejo de árvore é outro que funciona assim. Fui morar na metrópole por 10 anos e quando passei um final de semana no mato, depois de muito tempo, percebi como gostava da voz do vento tocando folha de árvore.
A árvore não balança só do lado de fora como movimento estético. Ela provoca um balanço pelo lado de dentro de quem está ao redor — só por existir.
A música do instrumento e a da árvore tocam tão alto que calam tudo o que não sabe harmonizar com elas. E cada um que escuta vira som.
Um som sem nome, sem tempo, sem medo, sem dor, sem ódio, sem fim.
Só um começo.

