Tô olhando o mundo parado e sempre correndo.
O vento para e parece que nenhuma folha se mexe. A fotossíntese continua.
O trânsito para, nem pra frente e nem pra trás se vai. A poluição continua.
O corpo para. A perna quebra ou a coluna trava. A circulação continua.
A parreira de uva retorcida parece morta quando perde as folhas, mas está preparando a próxima safra de vinho.
Plantas gostam de ficar um tempo contraídas, pensando com seus botões.
Tô olhando o mundo parado e sempre correndo.
Às vezes corro tanto e não vou. A mente se faz giratória, feito esteira. Nem imagino a saída. Às vezes, fico inerte e parece que caminhei toda a praia ida e volta, ida e volta. Quase sinto o sal impregnar os pés.
João Guimarães Rosa, que faz muita gente correr pelos sertões de Minas, diz:
“Até para sofrer, a gente precisa de quietação. Para sofrer com capricho, acondicionado, no campo de se rever.”
Por fora é tudo quietude, por dentro tudo é revisão.
Uma amiga quebrou o pé e deixou a bicicleta largada por meses num canto. Quando o pé finalmente se recompôs, ela foi rever a bicicleta e não pôde andar. A bicicleta estava parada, mas tinha um bocado de coisa em movimento nela. Na cesta, vingava um ninho cheio de moradores. Não dava para levar os pássaros todos para passear, teve de deixar a bicicleta parada.
Tô olhando o mundo parado e sempre correndo.
O que é parar e pra quem?
A linha da vida quando para, será que para?
As águas de dentro marulham ou murmuram?
Barulho de lago ou de mar?
As minhas águas de dentro marulham.
Mas quem escuta, só sabe o murmuro.

