Aquecimento floral

Uso o ipê como termômetro. Escolho um florido e fico plantada na calçada. Primeiro olho para a intensidade do amarelo e sinto o céu mais azul. Reconheço seus visitantes: hoje eram cambacicas e mamangavas. Me demoro namorando o tapete, feito pelas flores que não se contentaram em florescer a copa. Quiseram inventar caminho para os pés.

Chega o momento em que começo a me sentir bem e pego o termômetro para saber se a medicina está fazendo efeito generalizado. Observo as pessoas. O ipê de hoje era abusado. Motorista após motorista brecava para assistir à árvore. Apenas um passou direto.

Se o aquecimento global dependesse do que as pessoas fazem diante de um ipê florido, talvez o mundo ainda estivesse mais quente nos corações e menos desequilibrado na temperatura. 

Feito sino, a flor toca um alerta para a certeza de se estar vivo.

Já teci amizade embaixo de ipê amarelo. Já dialoguei em sintonia com ipê branco. Felizmente ainda não sofri nenhum acidente de trânsito por causa do ipê rosa e foi por pouco.

Não sou entendida em meditação. Mas, gosto da meditação do quintal ou do quarteirão. Aquela que acontece quando a mente ou as emoções estão sobrecarregadas e dou uma volta pelo espaço conhecido. Logo, vou sendo colocada no prumo, como se recebesse um shiatsu caprichado que entra pela respiração e se estica pelos alvéolos mentais. As folhas do pensamento vão se apagando de rasuras e se redesenhando com as cores da estação.

A meditação do quintal faz as vezes de um fio terra. Me tira da frequência dos raios que me partam e me aterra na frequência de quem expande as próprias raízes.

Exercito com certa assiduidade essa meditação. E quando resisto a ela, recebo um chamado. Certa vez, foi um abacate. Estava com a mente cheia, andando e olhando o chão, sem sair do mesmo ciclo mental, até que bati a cabeça num abacate, que estava simplesmente pendurado no seu estado de abacate.

Acordei.

É isso. O que seria uma meditação senão algo que te põe no prumo do presenciar, do ser, do apreciar e sentir completude? Um ipê no seu auge me convida ao meu. Assim, me planto na calçada e me espero torrente amarela.