Piso sobre a serrapilheira. Seu cheiro e textura se renovam nas estações.
Na Mata Atlântica, bioma do berço, a caminhada hidrata aquilo que em mim resseca.
Inchada de chuva, a serrapilheira faz silêncio. Deixa para o pensamento a natureza de ser barulho. Mas na mata, cada silêncio é prosa. Enquanto o suor da floresta exala seu cheiro cítrico, os verdes se empenham na pintura dos cinzas adoecidos. Meu pensamento se esquece de si.
No chão, um tronco decide ser abrigo. Acoplado a ele, um tubo longo indica a porta de entrada. Mesmo em estado de velhice, a madeira largada é eleita pelas abelhas.
Sinto na serrapilheira um jeito velho e doce de ser. Penso nela com cabelos brancos, vestida de esquecimento. Se ela sentisse falta das flores do ontem, não se entregaria ao presente de adubar o amanhã. É que a maciez da saudade impede o abandono. E abandonar-se é bom.
Piso sobre a serrapilheira e entendo que na natureza nada é lixo. Bactérias, fungos, urubus e a terra têm fome. Toda decomposição é bem-vinda.
O mesmo acontece na natureza humana: células e emoções morrem continuamente. A decomposição está viva e tem cheiro.
Inodoro na fonte, o suor do corpo só ganha cheiro na superfície. Bactérias habitam a pele e trabalham em sua decomposição, elaborando o aroma.
As bactérias são as grandes perfumistas do universo. Transformam os tecidos de um corpo inerte em gases e sais, exalando mais de 400 aromas. O primeiro cheiro da decomposição é doce.
Piso a serrapilheira e sei que corpos amorosos também se decompõem – por muito barulho ou por muito silêncio ou por muito esquecimento.
Mas o amor não morre. De cabelos brancos, a serrapilheira tem a mesma cor das raízes desejosas, que acordam no interior escuro da terra.
“E a Terra era criancinha ainda quando eu comecei te amar.”
Oliveira de Panelas, Amor cósmico

