A lâmpada amarela

Sou velha. Bastante velha. Tenho certeza disso. Não sei a minha idade. Mas sei que meu número de décadas não cabe nos dedos das mãos. Se eu tivesse que carregar no mesmo corpo toda essa idade… a lombar não daria conta. Então, experimento nascer para depois renascer e renascer.

Gosto de crianças que se escondem atrás de cortinas transparentes. E gosto de adultos que fingem não ver. Gosto de cortinas. Nas noites escuras, quando a lua ou a estrela é cheia, acendo dentro de casa uma lâmpada amarela. Assim, quem passa do lado de fora lê pela transparência da cortina que aquela casa nasceu com um desejo de céu. 

Não sinto antagonismo entre terra e o céu, entre aqui e lá, entre vida e morte. Se a cortina entre os mundos fosse mais fina, daria para ver muita coisa. Mas não sei se a gente gostaria de ver tanto, talvez quisesse desver.

Vejo o seu rosto. Hoje é o último dia em que ele poderá ser visto e ele está bonito. Não é o mesmo rosto de ontem, parece ser o rosto de 20 anos atrás. A delicadeza sempre habita lugares inesperados e produz uma beleza, que chega a doer. 

Alguém em completo anonimato, provavelmente numa sala um pouco escura de uma funerária pouco renomada, um maquiador sem grife e sem instagram devolveu ao mundo a verdade do seu rosto.

Às vezes, a gente vai esticando o tempo em vida, mas o corpo já desistiu. Pesa carregar um corpo desistido. E o peso aparece no rosto. Não nas rugas, mas nas mínimas feições desenhadas pela desistência. A dor envelhece o desejo e um desejo envelhecido se perde do frescor da rosa.

Naquele dia, o caixão abrigava um rosto que tinha se afastado da dor, tinha se reaproximado do desejo. Que abismo será que aquele rosto descortinaria do lado de lá? 

Às vezes, vou a um enterro e acho que o morto está vivo, dando uma volta de despedida pelo recinto,  ao mesmo tempo em que descobre o jeito de se apossar de seu corpo novo. 

É como se existisse uma cortina entre o mundo de lá e o mundo de cá. E a gente segue nascendo aqui ou lá sempre com algum tecido nublando a vista para o outro mundo, como se existisse algo misterioso.

Pretendo ainda olhar muito mistério, como uma criança que se esconde atrás de uma cortina transparente para desvendar qualquer coisa, antes de ser vista. 

Um dia vou olhar como os maquiadores cuidam de um corpo sem habitante, já despido de sua substância, e resgatam uma dignidade nova.

Tem gente que escolhe pendurar uma cortina grossa entre os mundos para se isolar da morte e fugir de qualquer pensamento fúnebre. Mas o fúnebre está conectado com a terra e a terra está conectada com a flor. A janela que se fecha do lado de cá é a mesma que se abre do lado de lá.

Sou velha. Bastante velha. Tenho certeza disso. É que já nasci com manias e incômodos e tendências e talentos e desejos. Quando as coisas não funcionam direito, há de se culpar os astros ou, quem sabe, os pais. Mas, nasci com jeito de confiar que, apesar dos pais e apesar dos astros, tenho também a mim. 

Eu e a correnteza dos fios que não deixo de tecer. Eu e meu abismo a descortinar. Pode ser escuro ou pode ser de rosas.

Sou velha. Bastante velha. Mas todo dia me vejo diante de cortinas grossas e finas como se fosse a primeira vez.

Quando escurece, a lua ou a estrela é cheia. Acendo a lâmpada amarela.