Sem porteira

Não tenho apreço especial pelos grilos quando pulam desordenadamente. Mini taquaras desgovernadas pelo vento.

Impossível encontrar um deles no quintal e batizar, saber que amanhã ele estará ali de novo e mais uma vez e depois e mais outra. Dizem que existem mais de 900 espécies de grilos – como decifrá-los? Eles não são gatos com seus olhos coloridos ou cachorros com uma mancha preta na pata esquerda, nem mesmo teiús que, por seu tamanho e pelo comprimento do rabo, até comportam o batismo.

Mesmo sem nome e sem amanhã certo, tem noite em que os grilos me resgatam pelos ouvidos e me levam. Saímos pelo quintal e adentramos uma terra sem porteira, uma floresta sem dono, um lugar de bicho sem tamanho e de gente sem necessidade de ter importância.

Esqueço quem sou e me deixo ir. Lá ninguém se incomoda com apagão, não sofre o aquecimento global, nem entende bem o que é sofrer. Lá a luz funciona por bioluminescência e a temperatura se regula pelas asas da mariposa. 

Alguns me culpam por eu passear por lá. Querem me arrastar pelos cabelos para a Terra do Sempre.

Me lembro dos meus cabelos rebeldes da infância. Minha mãe queria a escova. Eu queria os cachos. Hoje eu tento explicar. Falo baixinho. Às vezes grito mesmo com todos os meus pulmões: 

– A realidade não é aqui, ela está lá.

Eu não sou grilo e poucos me escutam.

  • A voz lindeza do áudio é de Roberto C. P. Junior.