Deságue

Um dia me vi presa num cano. Paredes impermeáveis e um único caminho. A retidão inodora e sem paisagem parecia não permitir saída. Estava acuada.

O pior era ficar ali dentro sob pressão. Eu corria um tanto, mas logo encontrava uma borracha, que vedava o mundo externo, impedindo a passagem.

Até então, eu conhecia a corredeira do rio, a onda do mar, o riacho, o igarapé, a cachoeira.

Conhecia também forças orgânicas e gregárias como o gelo ou a nuvem.

Eu circulava por corpos vivos como poucos já fizeram. Mesmo nessa situação, não me sentia presa. Nos vivos, as paredes têm poros. Quando queria sair, transbordava das carnes em gotas de suor.

Toda água se sabe serpente. Serpentear por rios-veias-seivas-sêmen-saliva-ar.

A paisagem fazia música de mim: o sangue e a linfa circundando os corpos, a seiva escalando os vasos do xilema, a onda açoitando o barco, a chuva confrontando a telha, o rio se esfregando nas pedras do leito.

Aos poucos, a prisão foi corrompendo minha natureza selvagem. Encanamentos subterrâneos, caixas d’água, canos e mais canos até a borracha vedante da torneira fechada. A impermeabilidade a me silenciar.

Mas até para o surdo ainda resta a vibração. Foram anos de confronto com aquela borracha até que notei uma mínima fragilidade, o indício de uma passagem. E foi por ali que comecei a me esgueirar.

Sem jeito de me derramar pela vida, eu acharia um jeito de vazar. Teimosa. Devagar. Tatear e cheirar novamente o mundo – mesmo que em gotas.

Pinguei uma e outra e mais uma.

Sigo pingando. Aos poucos. Espremida. Fugidia. Sem abundância. Sonora. Gota a gota. Por um fio.

  • A voz lindeza do áudio é de Cristiane Prizibisczki.